Editora e gráfica do Governo do Estado apresenta novas edições de livros do crítico e poeta alagoano que há décadas se encontravam fora de catálogo

Carlos Moliterno nasceu em Maceió, no dia 15 de março de 1912 e morreu no dia 19 de maio de 1998, aos 86 anos, em consequência de uma leucemia. Ele foi poeta, jornalista, crítico literário, diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos, presidente da Academia Alagoana de Letras, por seis sucessivos mandatos, e membro do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Filho de imigrantes italianos, ele é também autor da letra do Hino de Maceió.

Para desvendar um pouco mais a alma de Carlos Moliterno, conversamos com Carlos Alberto Moliterno, filho do escritor com a poeta Anilda Leão e discutimos importância de sua obra e sobre o escritor em sua intimidade familiar. Vindo de uma linhagem de grandes poetas, Carlos Alberto Moliterno é arquiteto e escritor. Ele é autor do livro Pequenos poemas para serem ditos, publicados pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, em 2013.

A Imprensa Oficial Graciliano Ramos está lançando, numa tacada só, a obra completa do seu pai Carlos Moliterno. Dois destes três livros, com lançamento previsto na programação da editora, durante a programação da 9ª  Bienal Internacional de Livros de Alagoas, estavam há mais 50 anos fora do catálogo das editoras alagoanas: Notas sobre poesia moderna em Alagoas e Desencontro. Como o sr. vê esses lançamentos?

Carlos Alberto Moliterno – Considero a reedição de Notas sobre poesia moderna em Alagoas, de 1965, uma oportunidade para que as novas gerações tomem contato com a produção de poetas alagoanos influenciados, de uma forma ou de outra, pelos movimentos de renovação modernista, hoje completamente esquecidos. É de notar que, se com alguns o tempo foi implacável, muitos ainda surpreendem com uma produção absolutamente atual. Ao lado disso, precede a antologia um ensaio didático sobre os movimentos de renovação que agitaram o Brasil, a Região Nordeste e Alagoas, na primeira metade do século passado, de muita utilidade para uma visão panorâmica daqueles embates em torno da literatura e da arte.

A partir das pesquisas que realizamos, durante o processo de edição dos livros de Carlos Moliterno, a impressão que nos foi deixada é a de que ele foi um líder, um grande fomentador do ambiente literário e cultural de Alagoas de sua época, mentor de diversas gerações escritores e escritoras. Essa impressão está equivocada?

Carlos Alberto Moliterno – Sua observação é correta. Mesmo antes de assumir a direção das páginas literárias dos principais jornais da terra, nos anos de 1940/1950, Moliterno já tinha esse perfil agregador em torno das mais diversas manifestações artísticas. Muito jovem, apreciador do cinema, fundou um cineclube com amigos. Chegou a emprestar o piano de sua residência para as sessões de cinema mudo no Cine Lux, na Ponta Grossa, onde residiu até o fim do primeiro casamento. Posteriormente, nos jornais e revistas que editou, e nas entidades que dirigiu ou de que participou, esteve sempre aberto aos que o procuravam, dando grande incentivo aos novos talentos da terra.

E justamente por ter se vocacionado para exercer o papel de fomentador cultural, ocupando diversos cargos públicos importantes, outra impressão que temos é que essa talvez tenha sido a principal razão para que a obra de Moliterno ter sido tão resumida, embora tenha demonstrado grande talento para a Literatura…

Carlos Alberto Moliterno – Moliterno era sobretudo um homem de jornal. Foi ao jornalismo que dedicou a maior parte de seus esforços. Inclusive na Imprensa Oficial. Mas foram os cargos que assumiu na gestão da cultura que possibilitaram o exercício pleno desse papel de fomentador cultural. Além, é claro, da participação, sempre ativa, em entidades como a Academia Alagoana de Letras, o Instituto Histórico, a Sociedade de Cultura Artística, entre outras. Era um homem que trabalhava de domingo a domingo e isso, sem dúvida, lhe deixava pouco tempo para se dedicar a sua própria obra.

Observando as fotos de Carlos Moliterno, percebemos que ele era um homem muito elegante e bonito, bem cuidado mesmo em sua maturidade. Esse apuro com a imagem se deve ao fato de ter exercido a profissão de alfaiate na época de sua juventude?

Carlos Alberto Moliterno – O certo é que o ofício de alfaiate teve influência no seu cuidado com o vestir. Sabia o que era um terno bem cortado, de costura perfeita e bom caimento, num tempo em que esses trajes eram feitos sob medida. Porém, sua questão me lembra agora uma frase que ouvi do jornalista e escritor Luiz Gutemberg, o que talvez responda a sua pergunta: “Ninguém, nem o Humphrey Bogart, segurava o cigarro entre os dedos com a elegância do Moliterno.”

Quais são as principais lembranças que você guarda do seu pai? Como era a relação de vocês? Ele era um pai linha dura? Ou era um pai amoroso? Ele te incentivava a escrever também?

Carlos Alberto Moliterno – Um homem que estava sempre a trabalhar. Seja em casa ou na rua. Inclusive nas noites, em que se ausentava para ir a eventos e reuniões. Quando em casa, estava no gabinete, debruçado sobre alguma tarefa. Nos finais de semana, encontrava os amigos no sítio de Théo Brandão, na Jatiúca, ou na casa de Osvaldo Vilela, ali mesmo no Farol, aonde íamos todos. Não foi um pai muito presente. Na adolescência, tivemos alguns conflitos, mas não era linha dura. Em casa não havia essa coisa de senhor e senhora, todos se tratavam por você. Devo a ele o gosto da leitura e da escrita. Nesse aspecto, lembro de meu pai exibindo, com algum entusiasmo, uma redação feita por mim, então nas séries finais do ensino fundamental, para o Gonzaga Leão. Mas sempre tive pudor de mostrar-lhe os meus poemas.

Seus pais escreviam juntos? Eles exerciam algum tipo de influência literária um sobre o outro?

Carlos Alberto Moliterno – Não. Suas rotinas, e motivações, eram bastante diversas. Apesar de opostos em temperamento, tinham, no entanto, muito em comum nos gostos. E nas ideias sobre arte e literatura. Divergiam mesmo na política, ele mais conservador – embora não reacionário –, ela se declarando socialista. Ele mais voltado para as questões literárias e acadêmicas, ela se dedicando às questões sociais e à luta pelos direitos da mulher.

Filho de Carlos Moliterno, com a poeta Anilda Leão, sobrinho de Gonzaga Leão, seria quase impossível você escapar da Literatura. De que maneira essa linhagem de escritores te influenciou?

Carlos Alberto Moliterno –  Na verdade, me considero mais um leitor do que um escritor, na acepção corrente da palavra. De onde vem o amor à literatura se não da leitura? Tive a sorte de ter, desde pequeno, uma grande biblioteca à disposição, que podia explorar como quisesse, e conselhos sobre o que ler. Na adolescência, a escrita veio mais como uma maneira de falar para mim mesmo, uma espécie de diário em prosa e verso, que mantive por anos. Depois joguei tudo fora. Ou quase. Da fase posterior, já mais maduro, enfeixei uns trinta poemas em volume publicado pela Graciliano Ramos por meio de edital. Tenho poemas e contos inéditos, que não sei se serão publicados algum dia. E trabalho agora no que consegui salvar do diário, a ser publicado no próximo ano por uma cooperativa de escritores criada por inspiração do poeta Rosalvo Acioli. Quanto a essa questão de linhagem, devo dizer que os exemplos citados me inspiraram muito mais por sua atitude perante a vida, do que propriamente no aspecto literário.

A crítica especializada considera que A Ilha é a obra-prima de seu pai. O sr. concorda?

Carlos Alberto Moliterno – Sim. Apesar de não ser crítico, e de tampouco ter feito estudos na área da literatura, compreendo que A Ilha representa a culminância da sua obra lírica. Afinal, mais de vinte e cinco anos separam os dois volumes. É Théo Brandão quem diz, comparando A Ilha a Desencontro, seu primeiro livro de poemas, que “nas elegias, a realidade é mais intensa, o fato histórico é mais numeroso e mais vivo, enquanto nos sonetos da Ilha o trabalho é quase inteiramente de recriação.” O mesmo crítico fala em transe e alucinação, com o poeta “voltado todo para a sua visão poética.” Acho que depois dessa visão, e desse transe, o poeta descansou a lira, satisfeito com a obra realizada. Ao que escreveu depois, não deu muita importância.

Carlos Moliterno traçou um panorama muito rico sobre o movimento modernista em Alagoas, valiosamente registrado em Notas sobre poesia moderna em Alagoas. E embora tenha sido um notório entusiasta deste movimento inovador, ele foi um exímio escritor de sonetos. Como se explica essa aparente contradição?

Carlos Alberto Moliterno –  Se você observar os poetas listados na antologia que complementa o Notas sobre poesia moderna em Alagoas, verá que muitos fazem uso do soneto, revalorizado pela chamada Geração de 1940. Geração que se contrapôs aos exageros do modernismo sem, no entanto, deixar de incorporar avanços do movimento de 1922. É o que diz o autor em seu ensaio. Na verdade, a adesão ao soneto tem atravessado os séculos. E o uso que deles faz o poeta de A Ilha está de acordo com a época em que foram concebidos, são absolutamente modernos. Por isso não há contradição.