Imprensa Oficial Graciliano Ramos celebra o Dia Mundial da Poesia

Editora é uma das principais incentivadoras da produção poética alagoana; dos 60 títulos publicados a partir do Edital Para Publicação de Obras Literárias, 43 são de poesia

 

Texto de Erika Braz

Hoje é o Dia Mundial da Poesia, uma data comemorativa instituída durante a 30ª Conferência Geral da UNESCO, em 16 de novembro de 1999. Este também é um dia de celebração para a Imprensa Oficial Graciliano Ramos, uma das principais incentivadoras da produção poética alagoana, pois além de publicar livros de poetas  reconhecidos nacionalmente, como Lêdo Ivo e Jorge de Lima, a editora pública vem dando grande contribuição na perpetuação do gênero literário no Estado, lançando o que há de melhor na poesia contemporânea.

 

Só para se ter uma ideia, dos 60 títulos selecionados pelo Edital Para Publicação de Obras Literárias, desde 2012, 43 são livros de poesia. E a cada certame, a ideia de que Alagoas é um celeiro de grandes poetas se confirma: o gênero literário é sempre hegemônico no número de inscrições do edital promovido pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. No último processo seletivo 76 obras, das 143 inscritas, eram de poesia. Entre as 11 obras selecionadas, sete são deste gênero literário.

 

“Mas, mais do que quantidade, é impressionante observar o alto nível das obras inscritas. Temos poetas absolutamente criativos e geniais que transitam por diversos tipos de linguagem e temáticas. O resultado disso é que a Imprensa Oficial Graciliano Ramos tem publicado livros de poesia para todos os gostos: como os hai-kais de Jô Saulo, autor de Qualquer Curva que me Leve Sem a Sua Linha Reta; os cordéis de Cícero Manoel, autor de Um Cordel Atrás do Outro; os versos contemplativos de Fernando Fiúza, autor de Outdó e Sonetos Impuros; a lírica existencial de Charles Cooper, autor de Poemas Definitivos (-quase); além dos versos combativos de Marlon Silva, autor de Vil e Tal e Ocre Barro”, exemplifica Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

 

Segundo ela, a poesia está entre os vários sucessos literários da editora como o livro Poesia Completa de Jorge Cooper; Calabar, de Lêdo Ivo; e O Mundo do Menino Impossível, de Jorge de Lima, um poema publicado em versão infantil, ilustrada pela artista visual Chris K. “Depois de relançar Sonetos Impuros – que praticamente se esgotou após o lançamento – pretendemos lançar ainda este ano uma obra de poesia inédita do historiador Dirceu Lindoso”, antecipa.

 

As mulheres têm presença marcante entre as obras de poesia que fazem parte do catálogo pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos. Pela editora já foram publicados seis grandes sucessos editoriais: Grão, de Ana Maria Vasconcelos; Monocromático, de Gabriela Hollanda; Não Conte Comigo, de Débora Omena; Elos e Nós, de Bruna Wanderley; e Livro D’Água, de Lillian Lessa. E a próxima safra de autoras selecionadas do Edital Para Publicação de Obras Literárias 2018 traz mais seis nomes para incrementar o elenco feminino de poetas: Ana Íris Silva dos Santos, autora de Cavia Porcellus; Amanda Prado, autora de Pedra Perdendo Seiva; Karen Pimentel, autora de Solidões; Maria de Fátima Costa e Silva, autora de Valsa Triste; Natasha Zanetti, autora de Veludo Violento; e Sara Albuquerque, autora de Giz Morrendo.

 

Monocromático

As palavras são as mesmas. As emoções são as mesmas. As confusões, indecisões e dúvidas, todas são as mesmas. A mesma espera, a mesma frustação, os mesmos desejos –  que mude! E muda. Então o desejo de mudança muda, alarga, agiganta. As mudanças sempre são as mesmas: insuficientes. Os olhos são os mesmos, semicerrados, cansados. Sempre a mesma menina, Ela, amando, desamando, amargurando, chorando, rindo, achando, perdendo, procurando. Ela, a recorrente. Ela e seu ego. Ela e sua crises. Ela e quem quer que seja. Mas ela. Uma mesma cor em busca de arco-íris.

(Gabriella Holanda)

 

                                                                                                                                       Substância

Haverá uma palavra partida para dar conta não daquilo que nos cobre, mansidão loira de amar, mas daquilo que nos resseca desde o espírito: o animal iniciático.

O estalido brusco do corpo: que-rer.

(Ana Maria Vasconcelos)

 

Poesia contemporânea

 

Como diria o poeta e dramaturgo espanhol Federico García Lorca, a poesia não quer adeptos, ela quer amantes. E para amar poesia basta apenas dar asas à subjetividade, pois há sempre um poeta capaz de despertar as mais diversas emoções em cada um de nós. Impossível, por exemplo, é ficar indiferente à poesia do arapiraquense Marlon Silva. Dono de um vocabulário incomum, com gírias e regionalismos raros, seus versos lançam mão de recursos sonoros, metalinguagens e uma fina ironia: um autor sem dúvidas, original.

 

Para ele, que também é professor de Literatura, a poesia é uma espécie de pluralidade de conteúdo. “Há tantas definições… Otávio Paz em seu livro, O arco e a lira, elenca um monte de coisas que a poesia é. Penso que ela é uma conexão entre todas as coisas. Também gosto de pensar que a poesia é uma alternativa ao apagamento do ser nesse contexto mercadológico em que tudo é diluído; de modo que ela é o meio e o veio onde é possível existir e resistir.”

 

 

Lição de coisas

Ninguém sabe de uma pérola

até que se abra a ostra.

Saber de uma pérola é, antes,

saber de um grão de areia.

Ninguém sabe de uma ostra

até que o mar a crie.

Ninguém sabe de um grão de areia

até que o vento o sopre.

Saber de uma pérola é, antes,

saber que uma ostra tem ventre,

um grão de areia é semente

e nada engana mais que a certeza.

Crescer pérola, ser pérola, é, antes,

acreditar no seu valor,

é saber-se único grão de areia,

no milheiro, a fecundar a ostra.

(Marlon Silva)

 

Tendo a vida como fonte de inspiração permanente, o professor José Minervino Neto, autor de Antes e Depois da Chuva, conta que as perdas enfrentadas depois de uma enchente no município de Branquinha foi o que o levou a escrever o seu livro publicado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, em 2016.  A obra também traz versos inspirados na sua musa e companheira Lwdmila que lhe mostrou “outros sentidos do mar e de amar”. De acordo com Minervino, o movimento das águas é que estabelece um elo temático entre os poemas publicados neste livro recente.

 

“A chuva é um fenômeno que sempre afetou minha família de forma visceral. Da parte de minha mãe, foram as histórias de escassez de chuva no sertão de Alagoas, em Mata Grande, que criaram um imaginário das águas na minha memória afetiva. Do lado paterno, este mais decisivo, porque mais presente, tem o rio Mundaú que a cada dez anos causa cheias e altera a paisagem e a vida de todos que vivem à beira dele. Sou branquinhense e minha história é toda feita antes e depois da chuva”, revela o poeta.

 

 

Trevoadas de Janeiro

Daí que sempre em janeiro

Deus estala os dedos

E chora um pouco

Corre cachorro,

Corre menino,

Corre todo mundo!

Lá vem o trovão

E as rajadas de chuva

Para encher os brejos.

É tempo de Sebastião,

Santos guerreiro encarnado,

Nos defender do raio.”

(José Minervino)

 

Richard Plácido, autor de Entre Ratos & Outras Máquinas Orgânicas, transformou suas inquietações e estranhamento em arte poética. “O livro foi acontecendo. Reuni poemas que escrevia desde 2013 e percebi que havia ali certa unidade. O alicerce do livro foi o rato como metáfora para a vida na cidade e seus descaminhos. Mas havia também outros seres, máquinas que podem ser vistas como orgânicas e seres que são vistos como máquinas; ou que se misturam ao ponto de não sabermos mais diferenciá-los, dividi-los (se é que isso seja realmente necessário)”.

 

Nisso Nada

Sensato

É estar do lado de fora

Razoável

É sentir

A temporalidade morta

A clássica cena do vazio

A destruição do ser

A reconstruição do foi

Ele sabe que

O morto nasce à parte

O padre reza a missa

O humano cabe nisso

Mas sou poesia

(Richard Plácido)

 

Detentor de uma verve irônica e poesia antilírica, Plácido afirma que a poesia tem papel tirar o leitor de sua zona de conforto.  “A poesia pode transformar a vida do leito, tirá-lo do lugar comum, aguçar o seu olhar para as coisas antes despercebidas no entorno. Pode também ser um meio de olhar criticamente o mundo e de se reafirmar como humano. A literatura tem essa força transformadora”, diz o poeta.