Milton Rosendo, autor de Caos-Totem, especialista na obra do ilustre escritor alagoano, analisa o legado poético do autor de A Invenção de Orfeu

Texto de Erika Braz

Há 125 anos nascia Jorge de Lima, um dos maiores poetas brasileiros de origem alagoana. Eclético e incompreendido, Lima transitou por diversos estilos literários, entre eles, o parnasiano e o modernismo. Além de publicar romances, ensaios e biografias, o ilustre escritor palmarino também foi médico, político, artista plástico e tradutor. Segundo os especialistas, A Invenção de Orfeu (1952) foi a sua obra-prima, mas também se consagram em sua rica bibliografia os romances Calunga (1935) e O Anjo (1934), além de Poemas Negros (1949).

Segundo Milton Rosendo, autor de uma tese de doutorado sobre A Invenção de Orfeu (O arquipélago poético de Invenção de Orfeu: uma arqueologia da fragmentação no épico de Jorge de Lima, UFAL/2011), Jorge de Lima foi incompreendido em sua época por manter um respeito profundo pelas tradições literárias. Mas, a despeito de tudo isso, seu estilo era marcado pela sua ousadia transgressiva de hábil experimentador da linguagem. “Jorge de Lima é, para mim, um artista irrequieto, sempre em busca de incorporar a multiplicidade através de experiências diversas, um virtuose no culto do verso, um homem sério e bastante meditativo acerca do seu fazer”, afirma.

Para Rosendo, também autor do livro de poesia Caos-Totem, numa época como a nossa, de uma poesia rala, anedótica e descompromissada com a função transformadora da arte, a leitura e releitura de Jorge de Lima é fundamental para que a nossas letras se reencontrem com o futuro. Na opinião do especialista, o principal legado literário que o escritor deixou é indiscutivelmente Invenção de Orfeu, um vasto poema em dez cantos, marcado pela diversidade de formas, ritmos e intertextos, “o maior poema moderno já feito por um brasileiro”.

“É uma obra monumental, não só pela sua extensão física que se estica ao longo de enumerações caóticas e do fluxo de consciência, mas também pela sua concepção metafísica, metalinguística, mística e até hipertextual”, ressalta. “Na verdade, o dom mais precioso de um homem é a sua imaginação, mesmo que ele tenha perdido tudo, ou que lhe tomem tudo, ela é a sua chave de acesso para todos os saberes, para todas as liberdades, para todas as experiências”.

O Mundo do Menino Impossível

Lançado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos no ano passado, o livro infantil O Mundo do Menino Impossível é o poema que demarca a entrada de Jorge de Lima no modernismo e o consequente rompimento com o estilo parnasiano de sua produção poética. O poema, publicado pela primeira vez há 90 anos, foi impresso em 300 cópias numeradas, ilustradas pelo próprio autor, colorizadas pelo seu irmão Hildebrando de Lima, também escritor. As ilustrações marcam ainda o início de sua incursão pelo mundo das artes visuais.

Os versos de O Mundo do Menino Impossível discorrem sobre o mundo encantado da imaginação infantil, onde todas as brincadeiras acontecem. Para o personagem central do enredo, a graça não está nos brinquedos refinados, dados pelos avós. Grande parte da diversão reside nos bois, ovelhas e cangaceiros, confeccionados com pedrinhas, sabugos de milho e tacos de madeira, feitos com as próprias mãos.

Ao contrário das crianças mansas que dormem cedo, acalentadas pela “Mãe-negra Noite”, o menino impossível brinca até a exaustão, enquanto a mamãe cochila, o papai cabeceia e o relógio badala. Porque o soninho sossegado só chega, sem que ele perceba, quando o mundo está povoado pelas criaturas mágicas que inventou.