Projeto editorial, fruto de uma parceria com a Fapeal e a Eduneal, traz clássicos não ficcionais sobre Alagoas, escritos por alagoanos. Lançamento será realizado neste sábado (2), a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas. Os primeiros livros da coletânea são assinados por Douglas Apratto, Dirceu Lindoso, Aberlardo Duarte e Nicodemos Jobim

Em sua noite de estreia na 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos lança a coleção Raízes das Alagoas – uma coletânea de livros clássicos, não ficcionais sobre Alagoas, escritos por autores alagoanos consagrados.  A coletânea, fruto de uma parceria entre a gráfica e editora do Governo do Estado com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e a Editora da Universidade Estadual de Alagoas, traz inicialmente obras assinadas por Douglas Apratto, Dirceu Lindoso, Abelardo Duarte e Nicodemos Jobim. O lançamento será realizado na noite deste sábado (2), a partir das 19h, no Arquivo Público de Alagoas.

Além do lançamento da coleção Raízes das Alagoas, a Imprensa Oficial Graciliano Ramos  também lançará, na mesma ocasião, o romance O Anjo Americano, do jornalista Luiz Gutemberg, e a obra completa de Carlos Moliterno. O evento gratuito e aberto ao público, contará com a apresentação da banda Divina Supernova. Durante a solenidade será realizada uma homenagem a Dirceu Lindoso, falecido recentemente.

A coleção Raízes das Alagoas é uma antologia formada por obras seminais, sobre a formação social, cultural e econômica do estado de Alagoas. Seu objetivo é promover o resgate de títulos consagrados pelo tempo, há anos fora de catálogo, mas que continuam indispensáveis para os estudantes e pesquisadores contemporâneos. Inicialmente estão sendo apresentados os livros: Metamorfose das Oligarquias, de Douglas Apratto; Formação de Alagoas Boreal, de Dirceu Lindoso; História de Anadia, de Nicodemos Jobim; e Os negros muçulmanos nas Alagoas – Os malês, de Abelardo Duarte. Contudo, nos próximos meses, serão agregados novos títulos de Thomas Espindola, Craveiro Costa, Sávio de Almeida e Jayme de Altavilla. A curadoria das obras selecionadas para a coleção é realizada pelos membros do Conselho Editorial da Imprensa Oficial Graciliano Ramos e pelos membros da comissão responsável pela produção dos livros que pertencem à editora da Imprensa Oficial, à Fapeal e à Eduneal.

“A Coleção Raízes da Alagoas vem responder a uma demanda não realizada nas comemorações do Bicentenário da Emancipação de Alagoas, em 2017, quando faltou uma iniciativa que retomasse a publicação dos livros clássicos sobre Alagoas, obras já referendadas pelo tempo e pela crítica, necessárias para compreender a formação alagoana”, afirma Fábio Guedes Gomes, diretor-presidente da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal), membro do Conselho Editorial, da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Em consonância, o economista e professor Cícero Péricles de Carvalho, também membro do Conselho Editorial da Graciliano diz que essa Coleção, que agora ficará à disposição do público interessado, tanto os estudiosos e pesquisadores como os leitores comuns, é formada por um conjunto de livros que estavam fora de circulação, mas que eram lidos em cópias antigas ou nos poucos exemplares existentes nas bibliotecas. “Sem essas obras, que são referências obrigatórias pela qualidade do texto e profundidade no tratamento de seus temas, fica mais difícil pensar o desenvolvimento cultural, econômico e social do estado. Significativamente, a Raízes das Alagoas começa com quatro obras muito citadas, mas de difícil acesso porque estavam esgotadas, fora de catálogos: o livro de Douglas Apratto estava há uma década sem edição; o livro de Dirceu Lindoso foi publicado e rapidamente esgotado há duas décadas; o estudo do Abelardo Duarte esperava por uma reedição desde 1958 e, no caso extremo, o do Nicodemos Jobim, publicado em 1881, era lido em raras cópias desgastadas há mais de um século”, ressalta.

“Como já estão garantidos os livros de Thomas Espíndola, Sávio de Almeida, Jayme de Altavila e Craveiro Costa, a Raízes das Alagoas já pode ser considerada um sucesso editorial. É uma iniciativa tão ousada que precisou contar com o apoio de três instituições estaduais vinculadas à cultura e à educação do Estado. Para receber uma Coleção desta importância, o momento e o local não poderiam ser outro que a Bienal de 2019”, afirma Dagoberto Omena, diretor-presidente da Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

“Já há uma grande expectativa em torno das novas edições destes clássicos. Há anos a comunidade acadêmica demandava o resgate de vários estudos relevantes sobre Alagoas que se tornaram raros, inclusive no mercado livreiro, como o livro Os negros muçulmanos nas Alagoas – Os malês, e o Historia de Anadia, mais raro ainda”, reflete Odilon Máximo, reitor da Uneal, membro do Conselho Editorial da Imprensa Oficial Graciliano, explicando que novos títulos com o mesmo perfil e a mesma relevância serão agregados à Coleção Raízes das Alagoas daqui pra frente.

Raras e relevantes

 Metamorfose das Oligarquias aborda o processo de transformação da realidade socioeconômica de Alagoas, durante a chamada República Velha. Este estudo crítico revela como as famílias tradicionais alagoanas se adaptaram às mudanças políticas nacionais para evitar mudanças reais no eixo do poder local, mostrando que o fenômeno das oligarquias e bem mais complexo do que supõe o senso comum.

Douglas Apratto Tenório é um dos maiores difusores do conhecimento histórico sobre Alagoas. Mesmo com uma obra vasta e profunda, amplamente reconhecida no meio intelectual e acadêmico, o historiador é responsável pela democratização do acesso às informações sobre o passado alagoano, publicando boa parte de suas pesquisas em publicações direcionadas ao público não iniciado, numa linguagem simples e descomplicada. Formado em História pela Universidade Federal de Alagoas, com mestrado e doutorado na Universidade Federal de Pernambuco, o professor, vice-reitor do Centro Universitário Cesmac, é autor de A Tragédia do populismo: o impeachment de Muniz Falcão e Capitalismo e ferrovias no Brasil, entre outros livros sobre os principais fatos históricos do estado. O autor estará presente no lançamento para uma sessão de autógrafos.

O livro Negros Muçulmanos nas Alagoas (Os Malês) é uma obra que discute sobre a presença de negros islamizados em terra alagoanas, mais especificamente no município de Penedo, no século 19. Neste livro, Abelardo Duarte discorre sobre a expansão da religião maometana no continente africano e sobre a chegada dos negros muçulmanos no Brasil.  Pouco numerosos, mas ortodoxos em suas crenças, os malês das Alagoas não sucumbiram à opressão religiosa da época, preservando diversos ritos muçulmanos, entre eles, uma espécie de cortejo fúnebre, conhecido como Festa dos Mort os, imortalizado em uma foto rara, publicada nesta edição. Contrariando a narrativa que defende a conformidade dos negros à escravidão, Duarte revela a importância da participação dos malês nos diversos movimentos negros insurgentes.

Abelardo Duarte (1900-1992) foi um dos principais estudiosos da influência do povo negro na formação cultural brasileira. Fundador da Faculdade de Medicina de Alagoas, foi pediatra, escritor, professor, jornalista, crítico, ensaísta, historiador e folclorista. Imortal da Academia Alagoana de Letras, secretário perpétuo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas e sócio honorário do Instituto Histórico de São Paulo. Também é autor de Folclore Negro das AlagoasAs Alagoas na Guerra da IndependênciaPedro II e Dona Teresa Cristina nas Alagoas; e O Periodismo Literário nas Alagoas, entre outros.

Formação de Alagoas Boreal, por sua vez, é um estudo etnográfico que aborda as origens do litoral Norte de Alagoas, região marcada historicamente por massacres, violência e insurreições, decorrentes da ocupação de terras para a produção de açúcar. Neste ensaio antropológico, o autor aborda as contribuições culturais das populações negras, índias e europeias nos costumes e tradições locais, mencionando também os principais personagens que exerceram protagonismo na sucessão de fatos que, para o bem e para o mal, impulsionaram mudanças na realidade regional, entre eles, Christopher Linz, Calabar e Zumbi.

Dirceu Lindoso (1932-2019) foi um dos mais importantes intelectuais contemporâneos do Brasil, nascido em Alagoas, no município de Maragogi. Cientista social, historiador, tradutor, romancista, ensaísta e poeta, sua obra subverte a visão oligárquica sobre a formação sociocultural do estado, apontando para a importância da participação dos grupos minoritários, como negros e índios, na construção de Alagoas. Seus livros são amplamente respeitados e discutidos no meio acadêmico, influenciando diversas gerações de estudantes, pesquisadores e militantes políticos. Ele tamb&e acute;m é autor de Utopia Armada – Rebeliões de pobres nas matas do Tombo Real e A Razão Quilombola.

A História de Anadia é uma obra fundamental para os historiadores contemporâneos por desvendar como era a realidade socioeconômica do município alagoano que, no século 19, englobava uma região formada atualmente pelas cidades de Limoeiro de Anadia, Junqueiro, Taquarana (Canabrava), Pindoba, Mar Vermelho, Tanque D’Arca, Belém (Canudos), e, indiretamente, Maribondo. Multidisciplinar, o livro traça um painel histórico e geográfico da região, com dados que contribuem também para pesquisas nos campos das Ciências Sociais e Botânica

Nicodemos Jobim (1836-1913) foi historiador, geógrafo, antropólogo, professor público de Instrução Primária da Vila da Imperatriz, sócio-correspondente do Instituto Arqueológico e Geográfico de Alagoas (IAGA) e patrono da cadeira de nº 15 da Academia Anadiense de Letras. Nascido em Anadia, colaborou para diversos jornais de sua época, entre eles, O Liberal, A Verdade e o Diário de Alagoas. Sua principal obra é o livro História de Anadia, mas escreveu diversos estudos publicados na revista do IAGA como o A Igreja de Coqueiro Seco na Província de AlagoasInf ormação sobre a jazida indígena de Taquara e Memorial biográfico de Manoel Mendes da Fonseca.