Escritor retoma produção poética com 60, obra que marca seus sessenta anos de vida, em sessenta poemas de forte temática existencial

Texto de Patrycia Monteiro

Depois da publicação sucessiva de três livros de prosa, o escritor Sidney Wanderley retoma as origens poéticas com sua mais nova obra: 60 – publicação de forte temática existencial, que marca a passagem de seus sessenta anos de vida, em sessenta poemas. O lançamento do título, editado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, está programado para a quarta-feira (17), às 19h, na Galeria Galpão 422. O evento é gratuito e aberto ao público.

O livro 60 traz uma breve antologia de antigos poemas de Sidney Wanderley, desde Post-húmus (1991) até Dias de sim (2012). Contudo, a maior parte do conteúdo da obra revela uma produção poética inédita do escritor. A morte, o tempo, a impermanência, as ilusões perdidas, os desejos e os afetos são alguns dos eixos temáticos de sua poesia recente.

“Este livro engloba versos de março de 1976, quando eu era primeiranista de Medicina, a março de 2019, quando me converti num sexagenário caduco, mas produtivo. Evitei alguns de meus poemas que são mais divulgados e conhecidos, a exemplo de ‘Inequação’, ‘O baile’, ‘Um carneiro’ e ‘A velha’. Priorizei os poemas de menor fôlego, que é onde julgo que me saio melhor”, afirma Sidney Wanderley.

Nascido no município de Viçosa, onde permaneceu até os 15 anos de idade, Sidney Wanderley faz parte da chamada Geração 80, formada por um grupo de escritores marcadamente antiacadêmicos, liderado pelo músico e poeta Marcos de Farias Costa. Mas a paixão pela literatura foi despertada quando ainda era um menino, em sua terra natal, por seu padrinho Zé Aragão que, ao lado das atividades cotidianas de farmacêutico da cidade, se arriscava criando versos fiéis à tradição parnasiana.

Fascinado pelos versos livres e pela poesia modernista, em 1978, Sidney Wanderley venceu um concurso de ensaios da Academia Alagoana de Letras, escrevendo sobre a ideia de suicídio contida na obra do poeta mineiro Carlos Drummond de Andrade. Este texto foi enviado, dois anos depois, pelo escritor e sociólogo Fernando Batinga ao próprio Drummond, com quem o escritor viçosense passou a trocar cartas, durante sete anos, até a morte do itabirano.

“Essa aproximação, quando ainda era estudante no Colégio Marista, foi determinante para que eu abandonasse os poemas panfletários”, relembra Wanderley, que então militava no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). As missivas trocadas com Drummond e suas reflexões sobre diversos clássicos da literatura universal estão presentes em seu livro Notas Sobre Leitura, lançado no ano passado pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos.

Avesso ao culto da “alagoanidade” e oscilante em sua relação de afeto com a cidade de Viçosa, Sidney Wanderley invariavelmente recorre à sua terra natal como fonte de inspiração. Foi assim em Cidade – livro de crônicas publicado em 2014, no qual o município e seus personagens do passado são descritos com muita nostalgia e senso de humor –, e também em A Feira, obra publicada em coautoria com o fotógrafo Juarez Cavalcanti, que apresenta os principais personagens e jogos de cena do comércio popular viçosense, conferindo humor e reflexão ao “caos buliçoso” e à “festa dos sentidos”, tão característicos das feirinhas nordestinas. Já em 60 o poeta dedica um capítulo repleto de poemas mordazes a Alagoas.

“Só os parvos e desmiolados logram nutrir um amor desmedido e incondicional ao torrão natal. E só os ressentidos e amargos destilam tão só ódio ao chão em que lograram ocorrer. A Viçosa que retratei em meu livro Cidade é uma cidade metade inventada para mim, metade inventada por mim. De resto, como ateu radical, sou contra qualquer culto: da alagoanidade à brasilidade, da boçalidade à mediocridade”, dispara o poeta.

Obra de Sidney Wanderley

1991 ‒ Poemas Post-húmus

1995 ‒ Nesta Calçada

1997 ‒ Quisera Ter a Beleza Que

1998 ‒ De Riacho do Meio à Viçosa de Alagoas

1999 ‒ Na Pele do Lago

2000 ‒ Desde Sempre

2001 ‒ Três Vozes Nordestinas

2002 – Hai-quase (em parceria com Fernando Sérgio Lira)

2004 ‒ Entropia

2009 ‒ Chuva e Não

2012 ‒ Dias de Sim

2014 – Cidade

2017 – A Feira (em parceria com Juarez Cavalcanti)

2018 – Notas sobre Leituras

2019 – 60