Obra aclamada pela crítica, comparada aos romances Ninho de Cobras, de Lêdo Ivo, e Angústia, de Graciliano Ramos, está de volta ao mercado editorial, vinte anos depois do lançamento de sua primeira edição, pela Companhia das Letras. Autor fará sessão de autógrafos na noite deste sábado (2/11/19), a partir das 19h, no Arquivo Público de Alagoas, durante a programação da editora na Bienal Internacional do Livro

 

Patrycia Monteiro

A Imprensa Oficial Graciliano Ramos está resgatando um grande clássico da literatura brasileira, escrito por um alagoano: o romance O Anjo Americano, do jornalista Luiz Gutemberg. A obra, aclamada pela crítica, cultuada no meio literário local, ganha uma segunda edição, duas décadas depois de ser publicada pela Companhia das Letras. O lançamento deste livro será realizado na noite de estreia da programação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos e seus parceiros, durante a 9ª Bienal do Livro, neste sábado (2/11/19), a partir das 19h, na sede do Arquivo Público de Alagoas. O autor, radicado em Brasília, estará presente no evento para participar de uma sessão de autógrafos.

Além do romance O Anjo Americano, a gráfica e editora do Governo do Estado também lançará na mesma ocasião a obra completa do crítico e poeta Carlos Moliterno e sua nova coleção de clássicos não ficcionais chamada Raízes das Alagoas, realizada em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do estado de Alagoas (Fapeal) e da Editora da Universidade Estadual de Alagoas (Eduneal). O evento gratuito e aberto ao público, contará com a apresentação da banda Divina Supernova.

À primeira vista o romance O Anjo Americano é uma história de mistério policial que começa com o assassinato de Judite Haziot, uma jovem judia alagoana, em seu apartamento, no Rio de Janeiro. Contudo, a narrativa surpreendente, ambientada sobretudo em Maceió, nos anos 1940, segue uma linha crescente na trajetória do protagonista Timothy Duncan, noivo da vítima, que desembarca em Alagoas, em busca de respostas para a elucidação do crime. Repleto de informações históricas, o enredo descreve a capital alagoana pós-Segunda Guerra Mundial, local de uma base militar americana. Boa parte da ação se desenvolve no Bela Vista Palace Hotel, onde o americano Timothy Duncan passa a conviver com diversos personagens alagoanos e a desvendar, com certa perplexidade, diversos vícios e costumes da sociedade alagoana da época em um ambiente político marcado pela violência, opressão e impunidade.

Misturando dados reais, com elementos ficcionais, ninguém sai impune da leitura de O Anjo Americano. O livro propõe diversas reflexões profundas e gera diversas especulações sobre a veracidade de personagens e situações descritas pelo autor jornalista. Na entrevista a seguir, Luiz Gutemberg faz algumas revelações sobre este romance considerado sua obra-prima, pelos especialistas, sem dar spoillers para aqueles que ainda não mergulharam no universo de O Anjo Americano.

O Anjo Americano é um romance muito cultuado no meio literário de Alagoas.  Diversos críticos costumam traçar um paralelo entre este livro e outros dois clássicos da literatura brasileira: Ninho de Cobras, de Lêdo Ivo, e Angústia, de Graciliano Ramos. Muitos afirmam que essas três compõem uma tríade contundente, reveladora de certos vícios da sociedade alagoana. Como o sr. vê essa comparação?

LUIZ GUTEMBERG – Ficção é ficção, e a coincidência de cenários, personagens, referências históricas sugerirem eventualmente semelhanças com a realidade não transformam romances em testemunhos. Eventualmente envolvido em tal situação de risco, extremamente honrado por ver minha modesta escrita listada ao pé de obras de Graciliano Ramos e Lêdo Ivo, surpreendo-me, feliz, e ao mesmo tempo invoco a autocrítica para situar a evidente confusão no patamar telúrico da paixão comum pela cidade de Maceió e seu povo. Literariamente, e já demonstrei a constatação em longo ensaio sobre Angustia, Graciliano que escreveu um dos mais pungentes romances urbanos, não é possível a comparação, a não ser pelo fato de que os atores e a paisagem são os mesmos. Assim como os ruídos, cores, acidentes, aqui e ali, denunciam as mesmas origens. No caso do Anjo Americano beneficia-me o álibi de que sou menos um romancista do que um repórter e escrevi um texto tecnicamente jornalístico, minha atividade profissional, pois sou apenas um jornalista em digressão literária.

Como surgiu a ideia de escrever O Anjo Americano? O livro traz um volume abundante de informações sobre a Maceió dos anos 1940, pós-Segunda Guerra Mundial, sua paisagem urbana, comportamentos sociais, estruturas políticas… A criação desse romance exigiu muito trabalho de pesquisa? Exigiu muita memória também? De onde surgiu a inspiração  para escrever este romance? A proposta de misturar fatos e personagens reais com o enredo ficcional dá margem para que o leitor faça diversas especulações sobre a narrativa de O Anjo Americano. A pergunta que não quer calar: Judite Haziot de fato existiu? E Timothy Duncan? E Mário Monstro?

LUIZ GUTEMBERG – A resposta está na epígrafe de Mary McCarthy, contida no livro. Arrumei fatos verdadeiros e os desenvolvi com licença literária. Todos os personagens, absolutamente todos, foram construídos a partir de modelos reais. Conheci Judite Haziot, Mário Monstro e até o próprio Timothy Duncan numa longa noite de jazz em New Orleans. E eles me forneceram a estrutura e a verdade que permeia os personagens da minha novela. A moralidade que a trama disfarça nasceu do caráter real de cada um. Meu modelo para Mário Monstro figura na galeria dos secretários de segurança de Alagoas.

Este recurso narrativo, de agregar dados reais à ficção, foi utilizado pelo sr. em outras obras de sua autoria, como O Jogo da Gata Parida, Rendez-vous no Itamaraty, Cadastro Geral dos suspeitos de ódio ao presidente. Esse exercício criativo advém do fato de o sr. ser jornalista?

LUIZ GUTEMBERG – Sim. Talvez o mérito único dos meus romances seja a de decupar a realidade, expurgando os excessos de fantasia dos fatos. A leitura da História é facilitada pela poda dos excessos e camuflagens. A fantasia é um dos atributos essenciais da política.

O sr. costuma dizer que se sente mais jornalista do que escritor e parte de sua obra é formada pela publicação de diversas biografias de personagens políticos brasileiros, entre eles, Ulysses Guimarães, Pedro Simon, José Sarney, a quem o senhor assessorou… Por outro lado, a política faz parte, de forma direta e indireta, de diversos enredos dos seus livros ficcionais. A política é uma paixão? O jornalismo também é uma paixão? Como o sr. vê a política e o jornalismo brasileiros na atualidade?

LUIZ GUTEMBERG – Sou jornalista, testemunha; não sou protagonista. Minha incapacidade de exercer proselitismos afasta-me tanto da falsidade ideológica como me qualifica para a isenção que se espera do biógrafo e do cronista. Não sou também historiador, pois não resisto à tentação do deus ex-machina dos ficcionistas.

O sr. saiu de Alagoas aos 18 anos para construir uma carreira jornalística bem-sucedida no Sudeste do país e em Brasília, onde mora atualmente. O sr foi comentarista político da TV Bandeirantes durante muitos anos, além de ser repórter e editor de jornais e revistas como o Jornal do Brasil e a Veja. Qual é a sua relação com sua terra natal? Dirceu Lindoso uma vez disse que Alagoas é “tudo o que se ama e dói”. O que representa Alagoas para o sr?

LUIZ GUTEMBERG – Sou e serei sempre um alagoano, por fatalidade e escolha. As dores dessa condição não superam as vantagens, e Graciliano sofreu mais do que ninguém, e ninguém mais do que ele se beneficiou da inspiração e transpiração da condição de alagoano. Dirceu Lindoso, um sábio dialético, foi perfeito. Alagoas é tudo que se ama e dói.

O sr. continua escrevendo? Há alguma nova obra literária que esteja em fase de elaboração neste momento?

LUIZ GUTEMBERG – Há dez meses, pelo menos dez horas cada dia, trabalho numa tentativa de escrever uma breve memória do mais emblemático alagoano de que tive notícia. Pedro Nolasco Maciel, que não conheci, mas em quem descubro traços e sinais profundos do homem de Alagoas.

 

Serviço:

Imprensa Oficial Graciliano Ramos na 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas

Lançamento de O Anjo Americano, de Luiz Gutemberg

Data: 2/11/19, a partir das 19h

Local: Arquivo Público de Alagoas – Rua Sá e Albuquerque, S/N, em frente a administração do Porto de Maceió

Evento Gratuito e aberto ao público

Preço do livro: R$ 25