Solenidade foi realizada na sede do Arquivo Público de Alagoas e contou com grande público

Deriky Pereira

A programação da Imprensa Oficial Graciliano Ramos começou a 9ª Bienal Internacional do Livro de Alagoas com o pé direito. Na noite do último sábado (2), o órgão realizou no Arquivo Público de Alagoas a primeira noite de lançamento de importantes obras que vinham sendo demandadas por leitores, o que reitera seu compromisso com o público acadêmico e literário do estado. Ainda na ocasião, também houve homenagem para o alagoano Dirceu Lindoso (1932-2019), um dos autores com obras publicadas.

Foram lançados a nova edição de O Anjo Americano, por Luiz Gutemberg; a trilogia de Carlos Moliterno, que reúne as obras “A Ilha”, “Notas sobre Poesia Moderna em Alagoas” e “Desencontros”; e quatro edições de clássicos não ficcionais da literatura alagoana, pela nova coleção chamada Raízes das Alagoas, em parceria com a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de Alagoas (Fapeal) e a Editora da Universidade Estadual de Alagoas (Eduneal).

O diretor-presidente da Imprensa Oficial, Dagoberto Omena, destacou que as obras são de extrema importância para Alagoas e reforçou a importância do Estado promover esse resgate literário e cultural. “Essas obras aqui lançadas estão esgotadas há, no mínimo, 10 anos, mas elas eram solicitadas, tinham demanda de pesquisadores e dos alagoanos de modo geral. E é isso que o Estado precisa suprir – entregando obras como essas, que não são comerciais para algumas editoras particulares, por exemplo, mas que precisam registradas”, salientou.

Dagoberto Omena ainda anunciou a distribuição da Coleção Raízes das Alagoas pelos municípios alagoanos. “Todas as obras passaram pelo crivo editorial da Imprensa Oficial, que conta com pessoas imparciais e isentas, e serão distribuídas para bibliotecas públicas de Alagoas”, disse.

Ele também reforçou que toda essa produção cultural alagoana será levada para outros estados do Brasil, numa forma de valorizar ainda mais os escritos. “Estamos trazendo de volta para a população todo esse aparato, essas obras reeditadas. E mais: em primeira mão, anunciamos que essa coleção irá para a Bienal Internacional de São Paulo. Nós vamos divulgar essas obras para todo o Brasil”, declarou o presidente.

Coleção Raízes das Alagoas

Em parceria com a Fapeal e com a  Eduneal, a Imprensa Oficial lançou os primeiros quatro livros da coleção Raízes das Alagoas. “A gente começa com o pé direito, trazendo quatro grandes lançamentos. Um desses livros, inclusive, teve única edição no século 19 e continua sendo muito demandado por estudantes de História. Então, basicamente, os livros aqui são muito solicitados pelo meio acadêmico e literário alagoano”, disse Patrycia Monteiro, coordenadora editorial da Imprensa.

O diretor-presidente da Fapeal, Fábio Guedes, disse ser um prazer para a entidade colaborar com a Imprensa Oficial no processo de revitalização da produção acadêmica e científica de Alagoas. “Nesses últimos cinco anos, nós já vamos em 130 livros publicados. E, especialmente agora, estamos num momento muito auspicioso, apesar de enfrentarmos um período de ataques à racionalidade, à ciência e à literatura. Por isso, a nossa intenção é, sim, a de juntar forças e levar essa produção para vários estados do Brasil, valorizando também os autores que estão contribuindo para o sucesso intelectual do estado”, declarou.

O diretor da Eduneal, Renildo Ribeiro, expressou sua felicidade em fazer parte desse projeto. “Essa é uma parceria muito boa. A Eduneal ainda é pequena, mas já conta com grandes obras como essas e ficamos muito felizes, não só pela qualidade acadêmica das obras, mas pela qualidade editorial do trabalho. São verdadeiras obras de arte, que vão entrar para a história do Estado de Alagoas, sem dúvida”, apontou.

As obras lançadas foram Formação de Alagoas Boreal, de Dirceu Lindoso; Metamorfose das Oligarquias, de Douglas Apratto; História de Anadias, de Nicodemos Jobim; e Negros Mulçumanos nas Alagoas (Os Malês), de Abelardo Duarte.

O Anjo Americano

A noite também foi marcada pelo lançamento do clássico O Anjo Americano, de Luiz Gutemberg. A obra conta a história de Judite Haziot, morta no último minuto de uma noite alegre, quando servia licor ao assassino. O enredo se passa no final da década de 1940 e, segundo o autor, é um hino a Alagoas.

“O meu livro, O Anjo Americano, é um hino a Alagoas, muito menos do que uma crítica. São histórias reais, com personagens reais. Mas, que, claro, tiveram seus nomes modificados”, ressaltou Luiz Gutemberg.

Exposição Querido Diário

Ainda na ocasião, a professora da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) e responsável pela exposição Querido Diário, Rosaline Mota, falou um pouco sobre o projeto e agradeceu aos envolvidos que fizeram com que o trabalho ganhasse os muros do Arquivo Público de Alagoas. A mostra reúne fatos representativos de cada uma das 11 décadas de existência do Diário Oficial do Estado de Alagoas (Doeal) e, como grande destaque, apresenta a máquina de escrever de Graciliano Ramos, diretor da empresa na década de 30o.

“Esse projeto pensado lá na Imprensa [Oficial] e com estudantes do curso de Biblioteconomia, faz um resgate de atos públicos de Alagoas através do Diário Oficial e apresenta todo um trabalho de recuperação do acervo físico desse que é um dos documentos mais importantes e antigos utilizados como ferramenta de Transparência em nosso estado”, destacou Rosaline Mota.

A programação da Imprensa Oficial na Bienal está ainda repleta de outros lançamentos e atrações nos próximos dias. Você pode conferir todos os detalhes por meio deste link.

Homanegem a Dirceu Lindoso

Uma das obras lançadas na coleção Raízes das Alagoas foi Formação de Alagoas Boreal, escrita por Dirceu Lindoso (1932-2019). Na ocasião, o alagoano recebeu homenagens, a começar por sua mulher, a professora da Ufal, Lia Lindoso, que recordou sobre a época em que a obra foi escrita, em 2000. “Foi muito engraçado porque eu estava acostumado com o ‘toc, toc, toc’ da máquina de escrever e nesse meio período a gente comprou o primeiro computador e só eu sabia usar. Aí eu falei: ‘Então, Dirceu, quem vai digitalizar sou eu’. Fui digitalizando e ensinei a ele. Na segunda parte do livro, ele já estava sabendo tudo e escreveu os demais sem a ajuda de ninguém. Então, esse livro marca essa trajetória da volta do Dirceu, essa segunda edição é muito significativa. Uma pena que ele não está aqui pra ver, mas ele viu a boneca e ficou satisfeito”, disse.

Lia também recordou a convivência com Dirceu. “Dirceu foi um escritor singular, batalhador. Ele trabalhava de noite, madrugada, de manhã. Ele acordava enquanto a gente dormia e… Era um trabalhador. Escrevia todos os dias, a noite toda, a hora que a gente tinha pra conversar com ele era de manhã, no café, porque ele já sabia de tudo que tinha acontecido, já tinha feito tudo e ficávamos conversando por horas. Depois, a gente perdia ele de novo, porque ele ia trabalhar”, lembrou.

Ela adiantou ainda o lançamento de mais uma obra do marido, dessa vez, um livro de poemas. Ele foi historiador, etnógrafo, escreveu bem como antropólogo e poucos sabem, mas ele também foi poeta. “Acho que o primeiro livro de poemas sai no mês que vem, também pela Imprensa Oficial”, adiantou Lia Lindoso.

O professor Bruno César Cavalcanti, também da Ufal, escreveu o prefácio da obra e falou sobre a importância deste trabalho. “Ele foi um grande escritor e estou muito satisfeito de ter prefaciado esse livro, sobretudo em ver que o mesmo está sendo lançado com duas obras literárias de alto nível”, disse.

Bruno também recordou a relevância do intelectual para o estado. “Acho que a grande contribuição de Dirceu, mais do que ler sua obra, é entender a sua lição em torno da necessidade de ousarmos, sermos criativos, inventivos. Mais do que louvar, pura e simplesmente, o homem ou a obra, louvaria essa perspectiva que ele deixa pra gente, de uma ousadia impressionante”, destacou.