LITERATURA

Poeta nascido em União dos Palmares morreu na última segunda-feira (28/05) deixando uma obra marcada pela leveza, lirismo e contemplação

A literatura alagoana está de luto. O poeta Gonzaga Leão morreu na última segunda-feira (28/05), aos 89 anos, de causas naturais, deixando muitas saudades entre amigos, familiares e membros na comunidade literária do estado. Nascido em União dos Palmares, o imortal da Academia Alagoana de Letras e da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro deixa uma inspiradora obra poética marcada pela leveza, lirismo e contemplação.

Autor de seis livros, entre eles a antologia poética Tijolo Sobre Tijolo Palavra Sobre Palavra, publicado em 2012 pela Imprensa Oficial Graciliano Ramos, Leão costumava dizer que sua poesia era simples e descomplicada. “Para entende-la, não precisa decifrá-la ou leva-la aos divãs da psicanálise. Não há nela nenhuma conotação moralista, conceituosa ou filosófica”, assim descreveu de maneira humorada seus versos no texto de apresentação deste livro.

Segundo ele, sua poesia contém um lirismo, quase em extinção, que se coloca sempre ao lado da vida “tantas vezes amarga, suja, violenta, mas que deixa como raspa no fundo do tacho, alguma coisa de beleza, de sensualidade. É quando o poeta acorda e a sua poesia acontece”.   Leão também é autor de A Rosa Acontecida (1955), Mar de Encanto (1957), Casa Somente Canto Casa Somente Palavra (1995), Casa o Outros Poemas (1997) e Preparação da Manhã (2005).

Luiz Gonzaga Leão era advogado formado pela Faculdade de Direito de Alagoas e foi funcionário do Banco do Brasil. Durante a infância e a adolescência estudou no antigo Colégio Guido Fontgalland, uma tradicional instituição de ensino de Maceió, palco de uma passagem memorável de sua vida. “Meu pai, Charles Cooper, me contou diversas vezes um episódio ocorrido nos anos 40, do qual Gonzaga Leão foi personagem, no Colégio Guido, dirigido pelo Cônego Teófanes Barros. O religioso era admirador da boa literatura e instituía um concurso de poesia, anualmente. Um certo ano, meu pai, o crítico literário José Augusto Guerra e o poeta Wanderley de Gusmão, então responsáveis pelo suplemento literário dominical do Jornal de Alagoas, foram convidados a fazer parte da banca julgadora do certame. Gonzaga Leão e Francisco Valois, ambos alunos do colégio, e jovens poetas, concorriam ao prêmio. Apesar do primeiro ter uma torcida bem maior entre os estudantes, e, decerto, ter apresentado um trabalho poético mais qualificado do que o seu principal oponente, sua poesia era de viés neoparnasiano. Os juízes, todos ligados ao modernismo e à geração de 45, deram a vitória a Francisco Valois, francamente, um fiel discípulo do verso livre. O resultado não agradou. Os juízes, incluindo meu pai, foram hostilizados pela plateia, e saíram do colégio às carreiras, descendo bem rápido a ladeira da Catedral. Na época que se brigava por poesia! Existiu este tempo”, relembra divertidamente Charles Cooper, ressaltando que apesar do ocorrido, Jorge Cooper e Gonzaga Leão se tornaram grandes amigos, exercendo influência mútua na produção poética.

Gonzaga Leão era apaixonado pelo mar, um dos temas recorrentes na sua poesia, assim como a casa, como metáfora do ser e sua relação com o mundo. Sua obra também se debruçou sobre temas políticos, alguns deles críticos da ditadura militar instaurada no Brasil, a partir de 1964. Um dos seus irmãos foi morto pelo regime. Curiosamente, no livro Tijolo Sobre Tijolo Palavra Sobre Palavra há uma poesia chamada Epitáfio, em tom autobiográfico, reveladora de sua verve lírica: “Eis aqui um poeta que descansa/como descansa um barco no seu porto./Ele finge que dorme e, mais, que sonha/ou simplesmente ele se faz de morto”.

“Gonzaga, como um pássaro, alçou voo a uma semana de emplacar os 89 anos de uma vida bem vivida. Cansou da luta, que foi dura como lhe foi o início da vida, lá em União dos Palmares, tendo de assumir responsabilidades muito cedo com a mãe e os dois irmãos mais novos. Poeta integral, muito jovem, quase adolescente, era visto nos bancos da Praça Deodoro recitando seus versos. Fazer versos, burilá-ros mentalmente, era um dos maiores prazeres que tinha. Isso até os últimos dias”, descreve o poeta Carlos Alberto Moliterno, sobrinho de Gonzaga Leão. “Se me perguntassem o que admirava no poeta além da sua poesia tão colorida e viva, eu diria: o carinho com a família e com todos que o cercavam. Mais que tio, e primo em segundo grau, mais que um amigo, Gonzaga foi um irmão mais velho. E quase um pai mais novo. Vai-se o homem – inesquecível. Fica a obra, eternizada no voo perene dos versos”.

Um Anjo e Poeta Chamado Gonzaga Leão

Sidney Wanderley*

Conheci Gonzaga Leão em meados de 1985, ele já aposentado e eu ainda funcionário do Banco do Brasil. Foi amizade à primeira vista, que perdurou por 33 anos, com períodos de mais intensa ou mais espaçada convivência. Não foram poucos os sábados em que entornamos dúzias de cervejas e degustamos irrepreensíveis tira-gostos, preparados pelas mãos generosas de sua musa e estrela da vida inteira, a adorável Leide. Devo boa fração de meu ventre avantajado a essas farras memoráveis, parte delas em sua casa, outra parte em seu apartamento.

Há pessoas que são como um abraço na humanidade ‒ pura ternura, afago sempre, perene delicadeza. Gonzaga era uma delas. Guardo notícia de raros seres tão férvida e intensamente queridos por familiares, amigos, colegas e por quem simplesmente teve a feliz oportunidade de conhecê-lo. Pai, avô, marido e amigo amantíssimo, desconhecia asperezas e arestas no trato com os semelhantes, e mesmo com os dessemelhantes. Tinha o coração amplo e numeroso, e o espírito e os braços sempre preparados para a festa e a acolhida.

Nossa amizade jamais se deixou abater ou arranhar pelos gostos díspares que tínhamos quanto à poesia. Para usar as categorias de Ezra Pound, diria que eu sou um poeta da logopeia, enquanto Gonzaga era um poeta da melopeia. “De la musique avant toute chose”, como anotou Verlaine. Daí Gonzaga preferir Jorge de Lima e Cecília Meireles a João Cabral e estranhar um bocado a poesia de Jorge Cooper, para tão só aludir a dois de meus poetas favoritos. Comungávamos a paixão por Drummond e Pessoa, e na prosa devoramos tudo de Gabriel García Márquez, um de nossos xodós compartilhados. O outro era Guimarães Rosa.

Em 1995, junto com o haicaísta Fernando Sérgio Lyra, publiquei aquele que para mim é o melhor e o mais coeso livro de Gonzaga – Casa somente canto, casa somente palavra , pela editora Escrituras, de São Paulo, encerrando a coleção Viventes das Alagoas, integralmente dedicada à poesia caeté. Gonzaga havia quase quarenta anos que não se dava a conhecer em livro, desde A rosa acontecida (1955) e Mar de encantos (1957). Ganhou, a partir daí, um considerável número de entusiastas e admiradores de sua fina e cativante poesia. Tinha, ademais, uma memória admirável e era um ótimo intérprete de seus poemas.

Uma semana antes de inteirar 89 anos, pois que nasceu a 5 de junho de 1929, em União dos Palmares, nosso queridíssimo Gonzaga Leão alçou voo num dos inúmeros cavalos alados que vicejam em seus mais felizes versos e sonetos. É só uma questão de tempo, e não muito, meu caro. Em outro cavalo alado, tomado de empréstimo a algum de seus poemas, seguirei em seu encalço. Novas cervejas, outros tira-gostos, novos poetas e prosadores regarão as barulhentas e prolongadas conversas que manteremos neste mundo de além-túmulo. Desta feita, prosearemos sem pressa alguma, pois teremos a eternidade por companheira.

*Sidney Wanderley  é poeta, revisou, autor de A Feira e Cidade